Quando éramos pequenos, nossos pais sempre nos falavam "filho, não confie em estranhos"... Depois, na escola "Desconfie das pessoas, não seja ingênuo"... Com o tempo vamos aprendendo a fazer amizades, confiar em amigos e, logo depois enquanto cidadãos, conhecedores da política, a desesperança nos diz impiedosamente: "não confie em ninguém".
É com este sentimento de decepção que escrevo aqui agora. Hoje, dia 04 de agosto de 2009, o até então parceiro de lutas em comum, amigo e companheiro de partido Sr. Ademir Ricardo, vereador pelo PPS, pingou - na minha opinião - a derradeira gota d'água em um copo que há muito vinha se enchendo com suas vacilações na defesa das causas populares.
Hoje, terça-feira, os vereadores de Itatiba se reuniram para mais uma sessão na Câmara. Quem leu meu último
post sabe que o projeto de lei nº. 81/2009 que trata da concessão de auxílio transporte aos estudantes universitários de Itatiba dificilmente seria votado hoje, haja vista que o Presidente da Câmara não havia levado a cabo sua promessa de coloca-lo em votação anteriormente.
De qualquer maneira, estávamos lá pra conferir a sessão e seu desenrolar, nós membros tanto da UME como da UNEafro e estudantes independentes ("todos" éramos poucos, mas depois os estudantes se mostraram ruidosos).
A sessão que tinha tudo pra ser o mesmo marasmo de sempre, foi sacudida no seu transcorrer. Através de uma brecha regimental, o vereador Edvaldo Hungaro (PPS) apresentou a ideia de um requerimento especial para inclusão do projeto de lei na pauta da sessão. A proposta precisava de 5 votos para prosperar. E isso aconteceu: Vitorio Bando (DEM), Irene Fumach (PMDB), Ailton Fumach (PMDB) e Ademir Ricardo (PPS), além do vereador Edvaldo Hungaro, assinaram o recurso.
Como se tratava de algo novo, que poucos vereadores conheciam, uma consulta rápida ao Jurídico da Câmara foi feita, e o resultado obtido era que o recurso era permitido sim!
E foi aí que começou a euforia dos estudantes. O projeto de lei nº. 81/2009, que nós tanto queríamos ver sendo votado (e aprovado) tinha entrado enfim em discussão.
O vereador-presidente David Bueno (PSB), pelo que consta, viajou. Em seu lugar, para presidir a sessão foi colocado o vereador Alfredo Órdine (PP), vulgo "Birdo". Pelas nossas contas então o projeto de lei seria aprovado, visto que com o voto favorável dos cinco vereadores que assinaram o requerimento especial seria suficiente, num placar de 5 a 3.
Porém, a bancada que desde o início se colocou contra o projeto de lei por nós apresentado não desistiria de ver "morto" o projeto. Logo no início da votação do projeto, o vereador Rui Fattori (PSDB), irmão do Prefeito Municipal, pediu a palavra. E pediu-a para quê? Para solicitar o adiamento do projeto de lei dos estudantes por 15 sessões.
Pausa pra pensar... - um mês tem no máximo 5 semanas. Como na média tem 4, e só ocorre uma sessão por semana (!), então um adiamento por 15 sessões adiaria o projeto de lei por 4 meses. Seria um adeus à 2009,
no mínimo.Mas lembre-se, estávamos confiantes. Afinal, os estudantes tinham 5 vereadores e a bancada contrária teoricamente apenas 3: Rui Fattori (PSDB), Valdir Franciscon (DEM) e Ronaldo Herculano (PDT). Venceríamos!
Antes de tudo isso acontecer, conversei com o vereador Ademir Ricardo. Em meio aos burburinhos de que o projeto seria adiado, fui conferir até onde ia a verdade dos ruídos. Falei com Ademir Ricardo e este me garantiu que iria votar hoje o projeto, inclusive que tinha assinado o requerimento especial para coloca-lo em votação. O mesmo ele disse ao coordenador regional da UNEafro, o Sandro Vieira. Estava tudo caminhando bem e informávamos os estudantes ali presentes sobre o que ocorria nos bastidores.
Voltando ao ponto em que havia parado, chegou-se a votação do adiamento por 15 sessões de nosso projeto. Para que não houvesse confusão, quem dissesse SIM votava pelo adiamento e o NÃO eram os contrários. Chamados por ordem alfabética, o primeiro dos vereadores chamados foi o Sr. Ademir Ricardo, que disse um envergonhado e tímido SIM.
SIM, ele disse SIM e concordou em adiar por 15 SESSÕES O PROJETO DE LEI QUE ELE MESMO ASSINA. Depois disso, a sessão pra mim acabou. Se juntaram a Ademir os vereadores Ronaldo Herculano, Rui Fattori e Valdir Franciscon. Do lado do projeto dos estudantes e portanto contra o adiamento ficaram Ailton Fumachi, Edvaldo Hungaro, Irene Fumach e Vitório Bando.
Com o placar empatado em 4 a 4, sobrou para o então correligionário de Paulo Maluf e presidente da sessão, Sr. Alfredo Órdine o "Birdo" a tarefa de desempatar a votação. Não sendo novidade para ninguém, votou com a bancada governista e contra os estudantes. Nada mais óbvio pra sua situação de representante no "púder" da família que detém o monopólio exclusivo do transporte coletivo na cidade, além do controle sobre uma estação de rádio e um jornal. Ê orgulho da família! É de dar inveja a qualquer Maranhão e Senado essa nossa cidade!
Mas o principal desta matéria não é o vereador pepista. É sim o vereador Ademir Ricardo. No poder legislativo, cada vereador/deputado representa uma parcela da sociedade. Há o que defende determinada classe de profissionais, outro que é sindicalista, outro que defende religião, outro que é de bairro/região e há até os que estão lá pra defender famílias ou empresas. Como disse Marx, está aí configurada a luta de classes e na Democracia a luta nossa de cada dia é nos parlamentos...
Antes que alguém pergunte, há também os vereadores que representam o povo mais humilde, esquecido, o mais pobre e fu.... dessa nossa sociedade selvagem. E eu pensava que o vereador Ademir Ricardo, poeta, artista e amante do teatro, fosse um desses que nunca fogem da raia quando o assunto é defender o POVO de fato. Quanta ilusão e decepção.
Nos deu as costas, sem nenhuma explicação perto de ser convicente. Era impossível justificar o injustificável. Os estudantes foram tomados de uma mistura de ódio, frustração e mágoa. Não queriam satisfação de vereadores sem compromisso, queriam palavra do vereador Ademir. Mas Ademir não tinha palavras pra lhes falar. E acabou para aquela gente a imagem do homem mito-popular e começou a do homem que trai seu povo por sabe-se lá Deus o que.
Por fim, pra mim sobra um misto de decepção (que já começou em janeiro) e pessimismo. Como pode aquele vereador que acompanhei diversas vezes nas ruas, em passeatas por preço justo no transporte coletivo, o vereador com o qual fui processado e massacrado uma dezena de vezes pelo poder da Direita itatibense, como pode ele ter mudado tanto em tão pouco tempo?
Apesar do "não confie em ninguém", termino dizendo que nossa luta não acabou. A missão agora é dar acesso ao povo de toda essa informação e principalmente ser justo com quem realmente nos representa e com quem na prática (e não só na teoria) deveria nos representar.